O que fazer quando já não se tem mais graça?
Quando as perguntas são tantas, e as respostas se escondem?
As interrogações são as únicas certezas, e nas palavras só restam sinceridade?
O que fazer quando o que sobrou é nada?
E as necessidades ultrapassam as irresponsabilidades?
Não se faz nada. Ou, se faz alguma coisa.
Não ter o que fazer é se entregar nas mãos do Pai.
Quando alguém nos pede para ouvi-lo
e nós começamos a dar-lhe conselhos, não fazemos o que ele pediu.
Quando alguém nos pede para ouvi-lo
e nós dizemos porque ele não deve sentir-se como está,
nós atropelamos o seu sentimento.
Quando alguém nos pede para ouvi-lo
e nós achamos que devemos fazer algo
para resolver os seus problemas, nós o desapontamos
e fazemos com que sinta-se incapaz.
Ouçamos!
Tudo que ele quer é ser ouvido, não quer ser interrompido.
Ele quer ouvir-se enquanto fala.
Ele não está paralisado.
Talvez desencorajado e hesitante, mas não sem forças.
Quando fazemos por ele algo que ele mesmo
pode e deve fazer, nós contribuímos com o seu medo,
sua inadequação e triste dependência.
Mas quando aceitamos que ele simplesmente
sente o que sente, não importa quão estranho nos pareça,
ele não precisa convencer-nos a ouvi-lo
e pode dizer tudo o que quer que seja ouvido.
Ele não precisará negociar nossa compreensão
nem dissimular o que existir por trás do que estiver sentindo.
E quando tudo parecer-lhe mais claro as “respostas” surgirão
naturalmente e ele não terá necessidade de conselhos.
Estranhos sentimentos fazem sentido
quando nós os compreendemos e aceitamos o que há por trás deles.
Talvez seja por isso que muitas vezes as orações
fazem efeito para algumas pessoas:
Porque Deus mantém-se mudo, não dá conselhos
nem se põe a fazer o que nós mesmos podemos.
ELE docemente ouve e deixa que façamos o que nos cabe.
Portanto, somente ouçamos.
… E se quisermos falar, esperemos um pouco pela nossa vez :
Seremos ouvidos também.

Calma coração meu, que sem pensar bate querendo acelerar.
Lembra que já aprendeu que tudo tem seu tempo, e se o tempo não é agora, logo chega.
Não busque sangue que você não tem, nem coloque veneno em minhas veias.
Acalme-se, e faça barulho pra eu te ouvir. Seus sons atenuam o timbre que meus ouvidos seguem. Ouvir seu ritmo me traz para perto do que é.
Não tape seus buracos com tampas furadas. Não enfie seus dedos, nem ponha areia. Aguarda, que o Modelador já vem. E sua carne já vai ser preenchida, e não precisará mais procurar o que não consegue achar.
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